No dia de São João, 24 de junho, todos saem de casa.
Dirigem-se para bem perto das águas e ali acampam.
Juntando-se uns aos outros em freqüência com o que
acontecera há anos atrás quando do batizado de São João Batista, os moradores
de Pucalpa repetem esta tradição a cada ano.
O povo dirige-se para a beira do lago.
Traz uma comida típica para partilhar e um belo
sorriso no rosto. A alegria do povo contrasta com as dificuldades. Meninos
mergulham em águas barrentas e todos, absolutamente todos tomam conta de todo
mundo.
Uma festa sem incidentes, confusão e ou ocorrência violenta.
Pucalpa é exemplo de harmonia. Bem aqui, do nosso lado, aos
arredores de Cruzeiro do Sul.
Em Pucalpa existem 35 mil triciclos registrados. São eles que garantem o transporte da maioria absoluta do povo. O governador Jorge Velazques me disse que é o sindicato de maior poder mobilizador em Pucalpa. A foto é do Odair Leal.
A delegação acreana de 140 pessoas que foi à região de Ucayalí, no Peru, na fronteira com o Juruá, saiu com uma certeza: a de que os peruanos querem mesmo intensificar a relação comercial, cultural e social com o Estado do Acre. E a recíproca é verdadeira.
Os peruanos - e isso não é novidade - são especialistas em tratar bem os que visitam aquele país. Fazem o que podem e o que não podem para agradar. O interesse em aprofundar a relação com o Juruá tem crescido nos últimos dois anos
Percebendo esse potencial inexplorado, a Assembleia Legislativa vem lutando nos últimos dois anos para aproximar essas duas regiões [Ucayalí e Juruá] com o objetivo de proporcionar a elas uma janela para o desenvolvimento neste começo de século XXI. Muito tempo já foi perdido, este é o sentimento existente nos dois lados.
O governador de Ucayalí, Jorge Velásquez, é um dos principais entusiastas do comércio entre o Juruá e a cidade de Pucallpa, a capital da região. Em todos os seus pronunciamentos ressaltou o fato do Brasil ser 'el país más grande del mundo', no entanto, com um comércio pouco significante entre as duas fronteiras.
A imprensa de Pucallpa - e dos demais distritos de Ucayalí - não mediu esforços para valorizar o evento. De transmissões ao vivo do encontro político-empresarial ao jogo de futebol entre a equipe local e o Nauas, a preocupação com a cobertura na mídia foi uma constante durante os dias em que as autoridades acreanas estiveram em solo estrangeiro.
O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Edvaldo Magalhães, consagrado pelas autoridades de Ucayalí como 'um amigo do Peru', disse que a Assembleia tem gastado muita energia nessa promissora alternativa econômica para o Juruá. O presidente lembrou que em épocas passadas produtos made in Peru eram comercializados em Cruzeiro do Sul com regularidade.
Depois de dois dias de conversações com autoridades de Ucayalí, comandadas pela Aleac, com apoio do governo do Acre, Tribunal de Justiça e várias outras instituições estaduais e federais, o Juruá, enfim, poderá se beneficiar com o intercâmbio comercial com o Peru. A porta da integração está aberta.
Caberá agora aos atores interessados entrarem em cena.
Até hoje eram conhecidos 25 casos de guerrilheiros mortos;
relato do oficial confirma e dá detalhes da perseguição
Por Leonencio Nossa, XAMBIOÁ (TO)
Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o major Curió, o
oficial vivo mais conhecido do regime militar (1964-1985), abriu ao Estado o
seu lendário arquivo sobre a Guerrilha do Araguaia (1972-1975). Os documentos,
guardados numa mala de couro vermelho há 34 anos, detalham e confirmam a
execução de adversários da ditadura nas bases das Forças Armadas na Amazônia.
Dos 67 integrantes do movimento de resistência mortos durante o conflito com
militares, 41 foram presos, amarrados e executados, quando não ofereciam
risco às tropas.
Até a abertura do arquivo de Curió, eram conhecidos 25 casos de execução.
Agora há 16 novos casos, reunidos a partir do confronto do arquivo do major
com os livros e reportagens publicados. A morte de prisioneiros representou
61% do total de baixas na coluna guerrilheira.
Uma série de documentos, muitos manuscritos do próprio punho de Curió, feitos
durante e depois da guerrilha, contraria a versão militar de que os mortos
estavam de armas na mão na hora em que tombaram. Muitos se entregaram nas
casas de moradores da região ou foram rendidos em situações em que não
ocorreram disparos.
Os papéis esclarecem passo a passo a terceira e decisiva campanha militar
contra os comunistas do PC do B - a Operação Marajoara, vencida pelas Forças
Armadas, de outubro de 1973 a janeiro de 1975. O arquivo deixa claro que as
bases de Bacaba, Marabá e Xambioá, no sul do Pará e norte do Estado do
Tocantins, foram o centro da repressão militar.
DESCRIÇÕES
O guerrilheiro paulista Antônio Guilherme Ribas, o Zé Ferreira, teve um final
trágico, descrito assim no arquivo de Curió: "Morto em 12/1973. Sua cabeça
foi levada para Xambioá". O piauiense Antonio de Pádua Costa morreu diante de
um pelotão de fuzilamento em 5 de março de 1974, às margens da antiga PA-70.
O gaúcho Silon da Cunha Brum, o Cumprido, entrou nessa lista. "Capturado" em
janeiro de 1974, morreu em seguida. Daniel Ribeiro Calado, o Doca, é outro da
lista: "Em jul/74 furtou uma canoa próximo ao Caianos e atravessou o Rio
Araguaia, sendo capturado no Estado de Goiás".
Só adolescentes que integravam a guerrilha foram poupados, como Jonas,
codinome de Josias, de 17 anos, que ficou detido na base da Bacaba, no
quilômetro 68 da Transamazônica. Documento datilografado do Comando Militar
da Amazônia, de 3 de outubro de 1975, assinado pelo capitão Sérgio Renk,
destaca que Jonas ficou três meses na mata com a guerrilha, "sendo
posteriormente preso pelo mateiro Constâncio e ‘poupado' pela FORÇA FEDERAL devido
à pouca idade".
Curió permitiu o acesso do Estado ao arquivo sem exigir uma avaliação prévia
da síntese, das conclusões e análises dos documentos. Ele disse que essa foi
uma promessa que fez para si próprio. Passadas mais de três décadas, a
história da terceira campanha ainda assusta as Forças Armadas: foi o momento
em que os militares retomaram as estratégias de uma guerra de guerrilha,
abandonadas havia mais de cem anos.
"Até o meio da terceira campanha houve combates. Mas, a partir do meio da terceira
campanha para frente, houve uma perseguição atrás de rastros. Seguíamos esse
rastro duas, três semanas", relata. "A terceira campanha é que teve o efeito
que o regime desejava."
Um dos algozes do movimento armado na Amazônia, ele mantém um costume da
época: não se refere aos guerrilheiros como terroristas, como outros
militares. "Em hipótese alguma procuro denegrir a imagem dos integrantes da
coluna guerrilheira, daquela juventude", diz. "O inimigo, por ser inimigo,
tem de ser respeitado."
Ele ressalta que, como um jovem capitão na selva, tinha ideal: "Queria ser
militar porque queria defender a pátria, achava bonito. Alguns guerrilheiros
tinham os mesmos ideais que nós. Mas nossos caminhos eram diferentes. Eu
achava que o meu caminho era o correto. Eles achavam que o deles era o
correto. Não eram bandidos, eram jovens idealistas".
No livro A Ditadura Escancarada, o jornalista Elio Gaspari diz que "a
reconstrução do que sucedeu na floresta a partir do Natal de 1973 é um
exercício de exposição de versões prejudicadas pelo tempo, pelas lendas e até
mesmo pela conveniência das narrativas". E emenda: "Delas, a mais embusteira
é a dos comandantes que se recusam a admitir a existência da guerrilha e a
política de extermínio que contra ela foi praticada".
MOTIM
Essa política de extermínio fica um pouco mais clara com a abertura do
arquivo de Curió. Pela primeira vez, a versão militar da terceira e decisiva
campanha é apresentada sem retoques por um participante direto das ações no
Araguaia.
Curió esteve envolvido no motim contra o presidente Geisel (1977), no comando
do garimpo de Serra Pelada (1980-1983), na repressão ao incipiente Movimento
dos Sem-Terra no Rio Grande do Sul (1981) e à frente de uma denúncia decisiva
no processo de impeachment de Fernando Collor (1992).
O arquivo dá indicações sobre a política de extermínio comandada durante os
governos de Emílio Garrastazu Medici e Ernesto Geisel por um triunvirato de
peso. Na ponta das ordens estiveram os generais Orlando Geisel (ministro do Exército
de Medici), Milton Tavares (chefe do Centro de Inteligência do Exército) e
Antonio Bandeira (chefe das operações no Araguaia). Curió lembra que a ordem
dos escalões superiores era tirar de combate todos os guerrilheiros. "A ordem
de cima era que só sairíamos quando pegássemos o último."
"Se tivesse de combater novamente a guerrilha, eu combateria, porque estava
erguendo um fuzil no cumprimento do dever, cumprindo uma missão das Forças
Armadas, para assegurar a soberania e a integridade da pátria."
O QUE FOI A GUERRILHA
Em 1966, integrantes do PC do B começaram a se instalar em três áreas do Bico
do Papagaio, região que abrange o sul do Pará e o norte do atual Estado do
Tocantins. A Guerrilha do Araguaia era composta por uma comissão militar e
pelos destacamentos A, B e C.
Da força guerrilheira, 98 pessoas pegaram em armas ou atuaram em trabalhos de
logística. Deste total, 78 foram recrutadas pelo partido nas grandes
metrópoles brasileiras e 20 na própria região do conflito.
Entre 1972 e 1974, as Forças Armadas promoveram três campanhas na tentativa
de eliminar a guerrilha - só venceu na última. A repressão contou com cerca
de 5 mil agentes, incluindo homens das polícias Federal, Rodoviária Federal,
Militar e Civil.
O conflito deixou um saldo de 84 mortos, sendo 69 guerrilheiros ou apoios da
guerrilha, 11 militares e 4 camponeses sem vínculos com o partido ou o
Exército. Vinte e nove guerrilheiros sobreviveram às três campanhas.
Entre guerrilheiros e ''apoios'', rede movimentou 256 pessoas
Levantamento feito pelo Estado revela que a rede
guerrilheira no Araguaia foi composta por 256 pessoas, entre comandantes,
combatentes, "apoios fortes" e "apoios simples". De 1966,
ano da chegada à Amazônia dos primeiros integrantes do futuro grupo de 78
guerrilheiros das grandes cidades, a 1972, início dos combates travados pelas
Forças Armadas, o PC do B conseguiu recrutar mais 20 pessoas na região e o
apoio e simpatia de outros 158 moradores (veja lista ao lado).
A identificação e o envolvimento de cada guerrilheiro, além do tipo de apoio,
foram obtidos por meio de depoimentos de militares, camponeses e sobreviventes
da guerrilha nos últimos anos. O levantamento só foi concluído na semana
passada, após confronto dos dados com as informações do arquivo agora revelado.
Mapas e relatórios feitos no período de abril a setembro de 1973 pelo oficial
do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura, então coordenador adjunto da
Operação de Inteligência Sucuri, permitiram a reclassificação de dezenas de
personagens da guerrilha.
Pela classificação de Curió, a colaboração dos camponeses incluiu 17 apoios
"fortes": eles recebiam guerrilheiros em suas casas com frequência,
eram responsáveis pela alimentação do grupo, avisavam sobre a presença de
militares, faziam trabalhos de espionagem e davam recados.
Já os chamados apoios "simples" alimentavam os guerrilheiros
esporadicamente, avisavam sobre a presença de tropas, se recusavam a prestar
informações e os defendiam em reuniões em locais públicos.
O barqueiro Lourival Paulino de Moura, preso em 21 de maio de 1972, em Xambioá,
foi único apoio morto durante os combates entre guerrilheiros e militares. Pela
versão oficial, Lourival se enforcou na prisão da cidade, às margens do
Araguaia. Na verdade, ele foi o primeiro executado pela repressão. O barqueiro
era um apoio "forte" do guerrilheiro Osvaldo Orlando Costa, o
Osvaldão.
OTIMISMO
Pelos relatos dos agentes que participaram da operação Sucuri, os guerrilheiros
mostravam otimismo nas conversas com os agentes infiltrados do Exército. No
segundo semestre de 1973, fazia um ano que as Forças Armadas não davam um único
tiro. As tropas tinham voltado aos quartéis. Os únicos militares na área eram
os 32 agentes infiltrados.
O agente Juscelino escreveu o que ouviu de um grupo de guerrilheiros, como
relata um dos manuscritos de Curió: "Falaram que o EB (Exército
Brasileiro) já lhes deu o ?ano? que precisavam para reorganizar-se e que, se
alguém entrar agora morre, pois tem tanta gente que não se conhecem todos".
Os guerrilheiros, que contavam com poucos armamentos, propagavam, segundo
Juscelino, que tinham capacidade de produzir uma metralhadora por dia.
"Disseram que tentarão calçar todos os elementos com botas de borracha,
que munição e armas eles não precisam comprar, pois tem um que faz uma
?metralhadora? por dia e muita munição", escreveu. O guerrilheiro que
produzia armas - mais apropriadas para caçar passarinhos - era o capixaba
Marcos José de Lima, o Ari Armeiro.
Naquele momento, os guerrilheiros tentavam arregimentar camponeses e ganhar
simpatia. O relatório manuscrito da Sucuri conta que um grupo liderado por Peri
e Dina passou horas conversando com moradores.
"Explicaram o porquê da existência deles, levaram panfletos",
registra o informe deixado por um agente. Os guerrilheiros diziam, ainda de
acordo com o relatório, que tinham pessoal suficiente para vencer os militares.
"Disseram possuir gente no Pará, Maranhão, Bahia, Brasília, Goiás e Mato
Grosso e que o movimento que está ?dando luz? é o do Pará e do Mato
Grosso", destaca o relatório.
Há informes curiosos registrados no manuscrito. A enfermeira e guerrilheira
Luiza Augusta Garlipe, a Tuca, foi vista por um agente infiltrado com uma
máquina de datilografia.
"Calçada com botina de couro, vestia calça preta e camisa preta de mangas
curtas e usava cabelos curtos. Disse que trabalhava no Hospital das Clínicas em
São Paulo. Carregava uma máquina de datilografia", registra o documento.
Tuca foi vista pelo agente com uma espingarda de cano curto, um revólver calibre
38 e uma bússola.